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  • Wander B.

A SAÍDA DE SERGIO MORO

E o dia de ontem?


Enquanto a pandemia assombra o mundo, o Brasil, esse país triste, esse país muito triste, precisa se ocupar também com uma desastrosa aventura política.


O dia de ontem não é motivo para nenhuma festa, nenhuma.


E é só mesmo por estarmos politicamente doentes que conseguimos esboçar algum tipo de alegria diante das aberrações que estamos presenciando no alto escalão da política do nosso país.


O que de fato aconteceu ontem?


Pois bem, Sergio Moro lançou sua candidatura pra 2022.


Mais tarde, Bolsonaro foi à televisão fazer mais um discurso dos mais estapafúrdios possíveis.


Entre os eleitores de Bolsonaro, vi dois tipos de manifestação até agora:


Uma parte ficou espantada com o que era óbvio, o modo não-republicano do presidente trabalhar, e se agarrou ainda mais ao Moro.


Se agarrou ainda mais ao Moro!


Sergio Moro, esse político que, depois de um ano e meio compactuando com o jeito de operar do presidente, decide romper com o capitão bem no meio da pandemia pra botar lenha na fogueira e fazer o que já esperávamos que ele faria mais cedo ou mais tarde: começar a sua campanha à presidência.


E ele resolveu fazer isso bem no meio da pandemia. É importante repetir.


Existem também as pessoas que se mantiveram fieis a Bolsonaro: se você deletou todas da sua rede social e acredita que o apoio ao presidente zerou depois de ontem, vale a pena estalquear os perfis de quem você deletou: você achará muitas pessoas que seguem com o mito pois elegeram o mito sabendo muito bem quem ele era e como ele gostaria de governar o Brasil - e isso inclui o controle de todos os ministérios e também da polícia federal.


Bolsonaro nunca escondeu isso.

Nada que o Moro disse é novidade. A novidade é Moro dizer.


E a oposição? Qual foi o movimento da oposição?

Um tipo de satisfação mórbida.


É evidente que eu entendo que as pessoas que lutaram contra a eleição de Bolsonaro também sabem das características do capitão.


Ninguém está, então, surpreso com as notícias de ontem.


A alegria surge, por vezes, pela possibilidade que o impeachment do presidente seja realizado diante da saída de Moro, ou seja, que o presidente perca força entre os seus apoiadores e possa ser retirado do cargo.


A utopia da esquerda é Mourão na presidência: que país triste, meu deus, que país triste!


Há também aquelas pessoas que se alegram puramente com a velha frase "eu avisei".


Vou lhes contar uma coisa: quando eu tinha sete anos eu pedi pro meu pai votar no Brizola.

Eu amava o Brizola - gostava do jeito que ele falava, nem sabia que ele era uma figura tão importante como hoje eu sei que foi.


Eu era uma criança.

Eu pedi pro meu pai votar no Brizola.

Meu pai votou no Collor.


(...)


Quando o Collor confiscou a poupança, o país entrou em colapso, as pessoas estavam se suicidando - procure pelas notícias da época!


Eu, que era uma criança, falava sempre pro meu pai: eu avisei, pai, eu avisei...


Mas eu era uma criança!


Eu não tinha a dimensão da crise, eu sequer sabia o que era o suicídio...


Entendem?


"Eu avisei" cabia ali naquela boca de criança.

Pirracento e insistente "eu avisei" cabia ali.


Nós, eleitores, pessoas adultas, precisamos amadurecer.


Trazer o debate pra outro lugar. Mais sério.


Vejam a situação:

Nós temos como presidente eleito o candidato mais despreparado que eu já vi pleitear a presidência.


Ele foi eleito.


Nós temos uma pandemia espalhada pelo mundo.


Pessoas morrendo. Pessoas desesperadas. Pessoas sem poder trabalhar, com fome. Pessoas com crises emocionais terríveis por conta da quarentena. Pessoas... Pessoas... Pessoas...


Pessoas sofrendo muito.


Nós temos aqui no Brasil a classe política em plena campanha enquanto as pessoas estão sofrendo muito.


Bolsonaro, o presidente, está em campanha.

Se elegeu e não conseguiu descer do palanque pra governar. Seguiu em campanha, não tem capacidade para governar.


Os governadores com mais capital eleitoral lançaram suas campanhas pra 2022.


Sergio Moro, o braço forte do presidente, aquele que participou de todo o jogo político que elegeu o capitão e se tornou o super-ministro do governo, decide também lançar sua candidatura em plena pandemia.


E as pessoas sofrendo muito.


E nós, porque nós somos a população desse país, morrendo pela falta de estrutura de saúde que vem de longa data. Também pela total falta de responsabilidade dos governantes que elegemos em 2018.


É importante lembrar: a democracia é o voto da maioria, nós elegemos essas pessoas.

Mesmo quem não votou em quem venceu o pleito elegeu o presidente?


Exatamente, é assim que funciona uma democracia.


Democracia é um acordo em que optamos pela decisão da maioria.


Pois é...


Mas as coisas tomaram contornos terríveis e o impeachment também faz parte da nossa Constituição.


Ele é viável?

Precisamos estudar. O país se acostumou com impeachment, naturalizamos a ideia de que "se não for bom, a gente tira".


Mas estamos pagando caro por esse pensamento.


Esse pensamento precisa mudar.


Nenhum país pode se estruturar fazendo eleição e impeachment de dois em dois anos.

Precisamos aprender a votar.


A festa do meme não resolve o que está acontecendo.


A batalha das narrativas em que nenhuma resulta em algo propositivo que pode melhorar o país e nos tirar desse profundo abismo em que estamos também não.


Precisamos amadurecer. Precisamos melhorar a nossa análise dos fatos. Precisamos ser mais criteriosos e menos passionais diante das coisas que acontecem.


Se não for assim, seguiremos nas mãos de pessoas inescrupulosas por anos e anos e anos...


Pensemos.

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