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  • Wander B.

APESAR DA INTERNET, NÃO SOMOS ONIPRESENTES

Bem, certamente você já viu passando por sua timeline alguma frase como "quando passar a quarentena, lembre-se de quem respondeu suas mensagens e se fez presente nesse momento tão difícil".

Discursos dessa natureza circulam muito. Alguns discursos contrários a esse ideário começam a aparecer.

Eu quero conversar com vocês sobre esse tema, que me é caro.

Ontem, um colega de profissão tentava entender o que motivava as pessoas a não responderem ou demorarem para responder suas mensagens.

Seria uma característica normal dos nossos tempos? Seria desrespeito? Será que dá pra responder isso com objetividade?

Bom, é evidente que isso é sim uma característica dos nossos tempos, afinal, não teríamos tantas e tantas mensagens para responder se não fosse a internet.

É normal? Precisamos pensar juntos, inclusive no que representa essa palavra...

Eu vivi o mundo pré-internet. Cartas chegavam, mas não eram centenas.

Telefones tocavam, mas a ligação tinha um tempo pra terminar: mesmo o casal mais apaixonado, no ápice do enamoramento, precisava chegar naquela frase "desliga você, amor", ao que a outra pessoa respondia "não, desliga você".

Isso poderia dar uns segundinhos a mais para a ligação, mas o telefone tinha que ir pro gancho: até porque ligação telefônica nunca foi coisa barata e vivemos em um país marcado pela injustiça social - é sempre bom lembrar!

Pois bem, a internet foi chegando, se popularizando, nasceram as redes sociais, muitas redes sociais, plataformas que eram utilizadas primeiramente no computador e, na década de 2010, chegaram aos nossos celulares.

E isso mudou tudo.

Porque uma coisa é ficarmos o dia todo em frente a um computador - e a depender da sua profissão, é provável que você fique muitas e muitas horas.

Mas o computador não fica no bolso, certo?

Já o celular está conosco o tempo todo: uma verdadeira prótese que se bobear só tiramos do corpo para tomar banho e para dormir.

Minto?

E aí é que surge um problema muito delicado.

Precisamos ficar atentos!

Diante dessa realidade em que vivemos, com os celulares colados ao corpo, e nos celulares uma infinidade de aplicativos e redes sociais, surge em nós uma sensação de onipresença.

Eu estou, por exemplo, na faculdade, enquanto recebo mensagens pessoais e de trabalho no e-mail, no Whatsapp, no Facebook (publicamente e inbox), no Instagram (publicamente e inbox), e também no Youtube.

Em maior ou menor grau, todos nós vivemos essa realidade.

Mas seguimos sendo uma pessoa só.

E o dia segue tendo 24 horas.

O meu dia, particularmente, antes da pandemia, tinha três turnos ocupados rigorosamente com trabalho e vida acadêmica. Muitas vezes saindo de casa antes das 8 da manhã e chegando em casa meia noite - chegando em casa meia noite precisando tomar banho, jantar, lavar louça, lavar roupa, isso tudo que também faz parte da vida.

Essa era a rotina "normal", sem contar os bicos que de vez em quando aparecem e levam também um tempo da madrugada.

No final das contas, são muitos e muitos anos dormindo em média 5 horas por dia.

É saudável isso?

Evidente que não.

Tudo isso que estou colocando é relacionado a uma vida pré-pandemia.

Depois que fomos atingindo pelo Coronavírus, as coisas mudaram.

Pra melhor?

Evidente que não.

Quem de fato pode parar tudo? Pouca gente.

Tem quem não tenha parado nada e esteja arriscando a vida nas ruas pra trazer o pão pra casa.

E quem parou? Bem, se você parou 100% e está apenas cuidando de sua saúde: parabéns! Mas você faz parte de uma minoria absoluta nesse país.

Eu estou há 60 dias em isolamento.

Parei de trabalhar? Nem um segundo. Parei de estudar? Tampouco.

As contas seguem vindo como sempre.

A barriga precisa de comida.

As instituições com as quais tenho compromisso seguiram com suas atividades de modo online.

Nós, artistas de teatro, estamos nesse momento inventando o que pode ser o teatro-online para não ficarmos desempregados por tempo indeterminado.

(falo da minha profissão porque é aquela que conheço bem, mas é só olhar para a taxa crescente de desemprego para entendermos que milhões de brasileiros estão tentando inventar uma forma de ganhar um dinheiro, ao mesmo tempo que precisam lidar com a saúde diante de uma pandemia e uma crise política específica do nosso país.)

E as mensagens chegando no e-mail, no Facebook, no Instagram, no Whatsapp com seus infinitos grupos...

E você, pessoa humana, segue sendo apenas uma pessoa: uma pessoa.

Com isso tudo, quero dizer que precisamos ser mais cautelosos do que nunca antes de fazer um julgamento sobre uma pessoa amiga.

Por que não respondeu?

Desrespeito?

Me odeia?

Não é mais meu amigo?

Olha, tem uma centena de aspectos que justificavam uma pessoa não responder uma mensagem na vida puxada que a gente já levava antes da pandemia.

Depois da pandemia, isso se multiplicou.

Tente entender.

E tente julgar menos: nós não sabemos como estão, de fato, as pessoas com quem nos comunicamos virtualmente.

A gente vê uma pessoa postando um quizz de Facebook, mas isso não significa que ela está em condições de responder a pilha de e-mails, as dezenas de áudios de whatsapp, as tais mensagens inbox...

Ela está online.

Você está vendo que ela está online.

Mas ela segue sendo uma pessoa só e está fazendo outra coisa naquele instante.

Enquanto você manda uma mensagem no Whatsapp e vê que ela está online, ela pode estar socorrendo uma outra pessoa que passa por uma crise durante a pandemia.

Pode ser, inclusive, o contrário: a pessoa que está online e não está te respondendo pode estar sendo socorrida por outra - nós estamos passando por um momento terrível, pessoas queridas!

Vamos cuidar da nossa saúde emocional?

Entrar na questão em torno dos motivos que fazem alguém não nos responder uma mensagem pode ser caminho para vários problemas.

Você pode condenar um amigo que te ama sem saber o que está acontecendo.

Você pode se julgar menosprezado por alguém que você gosta e ficar triste com isso.

Você pode entrar em um processo de ansiedade porque as pessoas não estão te respondendo.

Pessoas, precisamos nos cuidar!

Vivemos tempos doentes - e não só agora: agora tudo ganhou um contorno trágico porque estamos em uma pandemia, mas a nossa rotina já era insalubre antes.

Não somos onipresentes.

Não somos onipresentes.

Não somos onipresentes.

Precisamos entender isso para não ficarmos cancelando os outros e também para não ficarmos nos condenando por ter deixado acumular mensagens não respondidas.

A pessoa não respondeu? Paciência. Eu não respondi a pessoa? Paciência.

Precisamos pegar leve com as pessoas que gostamos.

Precisamos pegar leve com as pessoas que somos.

Fiquemos bem!

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