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  • Wander B.

E O BOZO?

Bozo é um palhaço que apresentava programas infantis na televisão brasileira nos anos 80.

E ponto.

E qual motivo me faz dizer isso?

Tenho recebido algumas críticas por me referir ao Presidente da República chamando-o pelo seu nome ou pelo título que lhe foi concedido nas urnas.

Pois bem...

É assim que eu olho para a política - e não somente para a grande política, é um certo modo de ser e agir no mundo: se eu tiver que debater alguma questão com a síndica do meu prédio eu a chamarei pelo seu nome acompanhado do pronome de tratamento senhora.

São coisas muito óbvias, mas como estamos tratando aqui de política, um tema urgente, vou gastar umas palavras para dizer porque julgo importante chamar Bolsonaro de Bolsonaro, porque julgo importante chamar de Presidente da República aquele que é o Presidente da República.

O óbvio é cada vez mais importante.

Vamos lá...

Fato é que não vejo nenhum benefício em dar apelidos carinhosos ou pejorativos aos políticos.

Sempre achei demasiado estranho ver pessoas chamando a Presidenta Dilma de Dilmãe. E sempre achei repulsivo ler os críticos chamando a Presidenta Dilma de Dilmanta.

Usar Presidente ou Presidenta, no caso de Dilma, tornou-se também um indicativo de apoio ou oposição - bobagem, as duas formas estão corretas e podemos e devemos tentar entender melhor a nossa língua, aumentar o nosso vocabulário: presidenta existe e eu não nasci sabendo isso, aprendi quando Dilma foi eleita, lendo, pesquisando, perguntando para pessoas que entendem mais do que eu - isso até chegar em um texto do Machado de Assis, que usa o termo.

Estudar e querer entender é muito bom, uma viagem prazerosa que pode melhorar tanto a nossa vida...

Mas voltemos ao caso Bozo...

Que é também o caso Coiso...

Que é também o caso Mito...

Que é também o caso Dilmanta...

Que é também o caso Dilmãe...

Que é também...

Que é também...

Que é também...

Certamente você tem inúmeros exemplos mais, eu me dou por satisfeito com esses poucos e digo:

Precisamos parar com isso.

Vou repetir com mais ênfase:

Precisamos parar com isso!

Precisamos parar com isso e amadurecer o nosso discurso. Amadurecer o nosso diálogo.

Não existe possibilidade de melhorar um país falando de seus representantes como se fôssemos crianças ou adolescentes de fundo de escola. Não dá. Precisa amadurecer.

Se é inconcebível que os representantes falem sobre assuntos de suma importância como se estivessem em um bar ou em um churrasco, se não podemos tolerar a postura indecorosa dos nossos representantes, creio que é preciso também mudar a nossa forma de tratar a política: não adianta esperar maturidade da política que acontece a partir dos nossos representantes se nós, os cidadãos desse país, tratamos a política de modo tão infantilizado.

É absurdo um Ministro da Educação fazer um pronunciamento ao país usando um guarda-chuva e fazendo gracinhas...

É patético.

É patético como são patéticos tantos e tantos pronunciamentos que assistimos diariamente por parte de tantos representantes.

Mas como pedir maturidade de um Ministro se a população se divide, na sua maior parte, em pessoas que chamam o Presidente da República de Bozo ou de Mito?

Tento encontrar motivos para fora do âmbito infantil para essa postura, mas não encontro.

Se você me diz que chama o Presidente de Bozo para mostrar o seu descontentamento com o governo: bom, não saiu do campo infantil.

E certamente não viabiliza nenhum tipo de diálogo com quem votou no candidato e, agora, Presidente da República.

E se você critica o Presidente apenas pra quem já é contra o Presidente seu manifesto é completamente sem sentido prático.

Se você me diz que chama o Presidente de Bozo para não tornar o seu nome um viral, para escapar dos aparatos virtuais que fazem os dados circularem, a tática é pobre e está falhando.

Bolsonaro está o dia inteiro nas timelines de todas as redes sociais, está em todos os jornais, em todos os blogs, em todos os sites...

Chamá-lo pelo nome ou não é indiferente nesse sentido: o que pode fazer diferença é fazer uma crítica madura que possa ser debatida sobretudo com quem o elegeu: é importante tentar.

Se você chama o Presidente de Bozo por motivos jurídicos, ou seja, se sente amparado legalmente por não usar o nome do Presidente, é preciso atentar para o tipo de conteúdo que seus comentários contém. Se são ofensas e xingamentos, sinto dizer, também não colaboram para a criação de uma política mais madura - a política que necessitamos.

No final da semana passada, Roberto Alvim, então secretário da Cultura, fez um pronunciamento nazista de dentro da estrutura governamental após uma reunião com o Presidente da República e o Ministro da Educação.

Isso é gravíssimo.

E isso é um caso no meio de tantos que nos enchem de preocupação.

Mas reparem, quando eu afirmo que um secretário de Cultura se reuniu com o Presidente da República e com o Ministro da Educação para, logo depois, publicar um discurso de cunho nazista, eu estou dando a devida importância ao caso.

Eu estou tratando o caso com seriedade.

É sério. E é por isso que devemos tratar com seriedade.

Não é programa infantil do SBT.

É um discurso nazista dito por uma pessoa escolhida pelo Presidente da República por suas competências - Jair Bolsonaro insiste em dizer que suas escolhas são sempre técnicas, diz isso desde sua campanha, e é a partir desse pressuposto que podemos dialogar com quem o elegeu.

Eu sou crítico de Jair Bolsonaro.

Quem me lê sabe que eu sou crítico de Jair Bolsonaro.

E desde a sua campanha que eu me coloco aqui em diálogo com seus eleitores tentando entender os motivos dessa escolha.

Algumas pessoas me leem.

Algumas pessoas me respondem.

Nós criamos um espaço político de diálogo. Pequeno, mas importante. E que poderia ser ampliado se mais pessoas estivessem engajadas nesse sentido.

Essa é a política do eleitor, do cidadão, a política fundamental para a mudança, a política que só é possível através dessa tentativa de diálogo.

Diálogo não significa concordância, mas implica na necessidade de maturidade e respeito.

Se nós não fizermos essa política que cabe a nós, os eleitores, da melhor forma, dificilmente teremos representantes melhores.

Fica difícil esperar que uma sessão da Câmara dos Deputados seja um espaço civilizado.

Colocar o debate sobre as questões mais importantes de um país nesse espaço banal dos apelidos jocosos e dos xingamentos é sintoma da nossa falta de educação política - e isso resulta nos representantes que elegemos!

É complicado ter que dizer uma coisa tão óbvia, mas é preciso chamar o Presidente de Presidente.

Bozo é um personagem infantil e, acredito, você que está me lendo já não é criança.

Então é importante crescer politicamente e colocar o discurso para fora do vocabulário infantil.

Isso é um passo.

Apenas um passo.

Mas um passo muito importante, sem o qual não vejo caminho algum.

Tentemos.

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