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  • Wander B.

O BRASIL E A SUA VERTIGINOSA RELAÇÃO COM O OSCAR

Não quero discutir a respeito da qualidade do documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Não sou crítico de cinema, sou artista - e é dessa posição, da posição de um artista brasileiro que eu sempre me coloco diante dos fatos; é isso que sou: um cidadão brasileiro que faz artes.

Pois bem. Dado o prólogo, vamos ao debate.

O que representa o Oscar?

O Oscar representa a celebração do domínio dos EUA sobre a produção cinematográfica de todo o planeta. É bem por isso que eu não celebro nunca a indicação de um filme brasileiro ao Oscar.

O cinema brasileiro é muito rico. É rico demais. Há algum tempo eu fiz uma lista de cineastas do Brasil por aqui, sem fazer muita pesquisa, só escrevendo os nomes que me vinham à cabeça... E aí é que temos muitos nomes incríveis, para todo tipo de cinema, do mais popular feito em narrativa clássica às produções mais radicais e experimentais: nós temos um cinema incrível!

E quando falamos de documentário, acredito que tivemos no Brasil o maior documentarista do mundo. O nome dele é Eduardo Coutinho e se você não conhece o convite tá feito: assista Jogo de Cena ou Edifício Master, entre tantos outros que eu poderia indicar. Mas veja. E mesmo pra quem já viu, Coutinho é cineasta de ser revisitado de quando em quando: é um gênio da arte, como já disse, o maior documentarista do mundo.

Tendo em vista esse elogio que faço ao Coutinho, é muito importante pontuar a importância de novos nomes como Petra Costa. É importante o surgimento de novos nomes no cinema brasileiro, é importante o surgimento de novos nomes no cinema documental brasileiro, evidente, é muito importante a presença cada vez maior das mulheres à frente das produções cinematográficas. É bom ter novos nomes. E é excelente termos mulheres entre esses novos nomes - e cada vez mais!

Mas e o Oscar?

O Oscar eu sigo repudiando com veemência.

E acredito que se a gente quer defender o cinema nacional, devemos defendê-lo por sua tamanha qualidade e nunca pelo seu parco aparecimento em premiações internacionais.

Validar a nossa produção cinematográfica tendo por base o aval de uma premiação que celebra a indústria que sufoca a nossa produção cinematográfica é um contrassenso, é um erro lógico.

Faz pouco tempo, o Presidente da República, o Jair Bolsonaro, disse que o Brasil não faz bons filmes há muito tempo. Que se fizéssemos bons filmes as salas de cinema estariam lotadas de gente para ver o cinema nacional e, portanto, não seria necessário que as salas fossem obrigadas a destinar uma porcentagem das suas exibições às produções feitas aqui no Brasil.

Acontece é que não é assim que funciona. Hollywood toma conta de tudo, é onde existe o maior fluxo de grana em torno do cinema, e é também onde se faz - salvo raras exceções - o pior cinema do mundo.

Se não tivermos incentivos financeiros e proteção legal por parte do Estado, o cinema brasileiro passará por dificuldades tremendas. Sobretudo no que diz respeito ao espaço nas telas dos cinemas, que serão ainda mais dominadas pela produção feita em Hollywood.

É bem por isso que ser coadjuvante da festa do cinema estadunidense não deve ser motivo de festa para nós brasileiros. E digo mais: ser coadjuvante da festa do cinema estadunidense não é interessante para o cinema de nenhum país; mesmo daqueles que possuem menos desigualdade social e, consequentemente, conseguem investir mais em arte e cultura. O fato puro e simples de existir um prêmio que chama "Prêmio de melhor filme de língua estrangeira" dentro do Oscar já é por si algo digno de nosso pensamento: só existe um prêmio para quem é de fora porque existe gente que está de fora - eu sei que a conclusão é redundante e óbvia, mas às vezes é para o óbvio que precisamos olhar a fim de fazer diferente.

Deixo aqui os meus parabéns a Petra, mas não pela indicação ao Oscar.

Parabenizo Petra por acreditar no cinema, por fazer cinema, por acreditar no cinema documental e fazer o cinema documental: isso é incrível; o Oscar não é incrível - o Oscar é um espaço onde se celebra a degradação do cinema.

Fecho o meu texto com as palavras do gênio da sétima arte, o sueco Ingmar Bergman, sobre o Oscar. Bergman recusou a indicação do seu filme Morangos Silvestres ao Oscar dizendo:

"Eu descobri que a nomeação ao Oscar é um dos institutos humilhantes para arte do cinema, e peço para que seja liberado da atenção do júri no futuro.”

Eu concordo com Bergman. E acredito fortemente que enquanto nós estivermos esperando o aval do Oscar para celebrarmos o nosso cinema, não estaremos celebrando o nosso cinema, mas a sua exposição ao que existe de pior para a sua existência.

Pensemos.

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