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  • Wander B.

O IMPEACHMENT DE BOLSONARO (?)

Sou um artista.


Não sou um comentador político profissional, embora me dedique ao estudo da política e da filosofia política há anos.


Quando paro para escrever algumas linhas aqui é justamente por entender que tenho algo a acrescentar ao debate: não dialogo com o grande público, sou conhecido por pouca gente, mas acredito muito nessa política que é possível fazer com o que se tem.


Eu trabalho com o que tenho, como artista. Eu faço política com o que tenho, como cidadão.


Como tenho dialogado com pessoas desde a eleição de 2018, quando comecei a escrever sobre a maior parte dos eventos, sempre que acontece algo expressivo e eu não escrevo imediatamente alguém me envia uma mensagem ou um e-mail querendo saber qual é a minha avaliação do caso.


Isso aconteceu quando Sergio Moro deixou o governo. E aconteceu agora novamente, após o compartilhamento do vídeo da reunião que teria motivado Moro a deixar o cargo.


Pessoas amigas, tenho pouco a acrescentar sobre o que está acontecendo. Então vou reafirmar pontos que escrevi em outros textos.


Não se pode subestimar Bolsonaro e o bolsonarismo.


A grande falha dos opositores de Bolsonaro em 2018, foi subestimar o potencial popular do presidente. Não falo de opositores de esquerda, falo de opositores de direita, de centro e também de esquerda.


O centrão fechou com Alckmin. Errou.

A esquerda bancou a candidatura falsa do Lula e depois acreditou que seria possível derrubar o capitão com Haddad. Errou.

Isolada politicamente, Marina que teve chances reais de ser presidenta em duas eleições não teve expressividade alguma diante desse quadro.

Ciro Gomes, também isolado, fez 12% de votos, o que deve enchê-lo de orgulho - toda pesquisa indicava que Ciro venceria tanto Bolsonaro quanto Haddad em um possível segundo turno. Mas isso não aconteceu.


A falha parte de um ponto que eu venho tratando exaustivamente e que, agora, depois de anos, por conta do vídeo, me parece que alguns opositores de Bolsonaro começam a perceber.


Que ponto é esse, Wander?


O bolsonarismo é um fenômeno popular.


Julgar que o bolsonarismo é um fenômeno elitista é um erro grosseiro.


É evidente que parte da elite brasileira fechou com Bolsonaro por conta das promessas do liberalismo econômico de Guedes, mas isso não elege um presidente no Brasil: fosse assim, o Meirelles teria chances, Meirelles foi candidato.


Bolsonaro é um fenômeno popular.


Se o juiz do supremo, o senhor Celso de Mello tornou público o vídeo acreditando que isso desestabilizaria o governo, errou.

Se o juiz agiu apenas como juiz desconsiderando a política e pensando apenas no conteúdo criminoso contido no vídeo, agiu bem, apesar de colhermos agora as consequências da publicidade do vídeo.


E qual a consequência da publicidade do vídeo, Wander?


Bolsonaro está mais forte. E se você deletou todos os bolsonaristas de suas redes sociais, eu te convido a stalkear esses perfis e ver com os próprios olhos.


Mas acredito que não seja preciso.


Pela primeira vez, boa parte das pessoas que conheço perceberam a força popular de Bolsonaro e se assustaram com o óbvio.


Mas e agora, diante disso tudo, há possibilidade de impeachment?

Não há, pessoas queridas. Não há.


Vou dizer com todas as letras o que vocês já deviam saber, afinal, acabamos de sair de um impeachment há poucos anos. O impeachment no Brasil, de acordo com a Constituição, é um processo estritamente legal.


Mas é assim que acontece?

Não.


O impeachment é, sobretudo, um acordo político.


E então vocês podem me dizer que basta o Rodrigo Maia aceitar um dos tantos pedidos de impeachment e a oposição se unir para retirar Bolsonaro do poder.


Mas por que isso não aconteceu ainda?


Há quem suponha que Maia foi comprado por Bolsonaro.


Com toda paciência do mundo, mas sem meias palavras, digo que esse é um dos discursos mais pueris que se pode fazer diante do que está posto.


Bolsonaro não precisa comprar Maia.

Bolsonaro sabe que é forte.

Bolsonaro sabe que Maia sabe que ele é forte.


Maia é hoje a figura mais importante dentro do arranjo democrático brasileiro - lidem com isso!


Se Maia aceitar um pedido de impeachment com base no conteúdo da reunião, estará acertando do ponto de vista legal, mas errando do ponto de vista político.


Maia sabe que o impeachment no Brasil depende de fatores políticos.


Eu espero que Maia, então, não aceite essa semana nenhum pedido de impeachment.


Então você é contra o impeachment de Bolsonaro, Wander?


Pessoas queridas, eu repito, sou opositor de Bolsonaro desde que o vi pela primeira vez.

Tudo que Bolsonaro defende afeta diretamente a minha vida de forma negativa.


Durante a pandemia, a conduta do presidente é a pior possível: ele desrespeita todas as regras da OMS e coloca o nosso país em total vulnerabilidade.


O Brasil será, muito provavelmente, o país com mais mortes pela Covid-19 e Bolsonaro é, sim, responsável por isso.

O Brasil será, entre os países de seu porte, aquele que sofrerá as piores consequências econômicas depois da pandemia. E isso é também responsabilidade de Bolsonaro.

Mas não há condições de tirá-lo do poder.


Bolsonaro foi eleito com milhões de votos e a maior parte dessas pessoas não se arrependeu de seu voto - pelo contrário, se sente cada vez mais representada pelo presidente em suas falas e ações.


Tenho que dizer uma terceira vez:

O bolsonarismo é um fenômeno popular.


Se Maia não entender a gravidade disso, o Brasil vai pagar ainda mais caro.


Com todas as letras, outra vez, uma vez que quero colaborar com a discussão.


Se o impeachment entra em trâmite, há grande chance de Bolsonaro passar pelo processo sem ser retirado do governo. Ou seja, vencer o processo de impeachment e se tornar mais forte: nunca ninguém passou por esse processo no Brasil sem cair, Bolsonaro seria o primeiro caso.


As consequências políticas disso são desastrosas, uma vez que Bolsonaro terá ainda mais coragem para atuar fora do campo democrático, agindo cada vez mais como um ditador.


Se o impeachment entra em trâmite e a oposição se une e tira o capitão da presidência, as consequências políticas disso também são desastrosas: o eleitorado de Bolsonaro vai sentir que seu presidente foi golpeado, Bolsonaro cresce popularmente e, diante disso, podemos ter consequências que passam pela possibilidade de grande confronto civil, mas sobretudo refletirão eleitoralmente em 2022.


É importante lembrar que Bolsonaro perde direitos políticos se for retirado pelo impeachment, mas tem três filhos com expressividade para sustentar o legado do pai na próxima eleição.


É bom lembrar que Eduardo Bolsonaro é o deputado federal mais votado da história.

E conseguiu ser o deputado mais votado da história por São Paulo sendo carioca: isso não é pouca coisa.


O bolsonarismo é um fenômeno complexo e popular.


Eu sei que eu já disse isso dezenas de vezes, só nesse texto é a quarta vez, mas é porque precisamos entender isso de uma vez por todas.


Enfrentar um fenômeno dessa natureza imaginando que palavrões na boca do presidente vão surtir efeito negativo é muita inocência.


Outro ponto:


Os palavrões do presidente, pessoas queridas, precisam ser avaliados legalmente e não moralmente. A avaliação é perante a lei: faltou com o decoro? É isso que precisa ser avaliado. Mas outra vez, isso não sustenta um impeachment.


Encerro meu texto pontuando algumas coisas:


Se você é a favor do impeachment, siga sendo. É direito seu. Eu só estou pontuando possíveis consequências. Eu só não quero fortalecer aquilo que já é extremamente danoso, o pior presidente da história desse país.


Se você quer se manifestar contra Bolsonaro: se manifeste. Eu estou aqui me colocando contra o governo, mas faço isso ponderando o quadro de acordo com uma avaliação rigorosa que tento fazer diante do que está acontecendo.


Te convido a fazer o mesmo. Pondere. Avalie com cautela. Veja se faz sentido o que eu escrevo e faça um paralelo com aquilo que você está defendendo. Tire suas conclusões, mas não seja simplista: o jogo é complexo e precisamos de inteligência pra sair dessa.


Últimas inquietações:


Como se realiza um processo de impeachment durante uma pandemia?


Como ocorrem as comissões e votações que fazem parte de um processo de impeachment durante uma pandemia? É online? O bolsonarista vai aceitar um presidente deposto por voto online?


Mourão resolve ou ameniza o problema caso o processo venha a tramitar com sucesso mesmo diante da pandemia?


Se você é defensor de novas eleições, você já se informou sobre a real probabilidade disso acontecer? Imaginando que fosse possível uma nova eleição 90 dias após a queda de Bolsonaro, como seria essa eleição em plena pandemia? Online?


Pensemos.

Pensemos com complexidade.


E melhoremos o nosso voto: foi o nosso voto que nos colocou nessa situação tão difícil.

E não foi só o voto da direita, o voto bolsonarista.


O centro errou. A esquerda errou. Eleitores de centro votaram mal. Eleitores de esquerda votaram mal.


Precisamos melhorar.

É urgente.

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