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  • Wander B.

O QUE VOCÊ ACHOU DO VÍDEO DO CAETANO?

Conheço a discografia de Caetano Veloso de ponta a ponta - algo que posso dizer sobre pouquíssimos artistas e ganha ainda mais dimensão ao considerar que se trata de um artista com uma obra muito extensa.


Sobre o Caetano eu posso dizer: conheço quase tudo (se não tudo) e aprecio muita coisa - muita coisa mesmo!


Mas apreciar a obra de um artista não significa compartilhar de todas as ideias defendidas por esse artista, tampouco compactuar com todas as ações públicas ou privadas desse artista - e evidentemente não compartilho de todas as ideias defendidas pelo Caetano, nem compactuo com todas as suas ações dentro e fora de sua obra.


Isso que digo é, grosso modo, uma obviedade.


E uma obviedade que podemos estender a outros artistas e não só: também não concordo plenamente com tudo aquilo que os pensadores que mais leio e estudo defendem.


Existe um movimento que julgo ser importante, muito importante, diante dos artistas e suas obras, diante dos filósofos e suas obras: é necessário fazer um inventário, fazer um grande levantamento crítico e escolher aquilo que nos interessa e aquilo que não nos interessa.


Quando não fazemos esse movimento, a tendência é o desperdício: descartamos toda uma obra extensa e valiosa por conta de uma ou algumas discordâncias. É desperdício. E é prejuízo imenso do ponto de vista intelectual.


Há bem pouco tempo, na semana passada, estive em diálogo com amigos do campo da filosofia que estavam fazendo duras críticas a Nietzsche.


E é evidente que, ao ler Nietzsche, sobram oportunidades para fazermos críticas - são muitas as passagens em que o autor nos constrange com altas doses de machismo e xenofobia, por exemplo.


Mas diante disso, fazer o quê? Queimar os livros? Não é o caminho. Trata-se de um grande filósofo. A obra é rica e pode nos auxiliar e muito na construção de um mundo melhor.


Detectar os aspectos positivos e negativos da obra é, por sinal, já um bom começo para se pensar em um mundo melhor.


Ou seja, advogo contra qualquer possibilidade de livro na fogueira.


E também advogo contra discos na fogueira.


E também advogo contra filmes na fogueira.


Mas tendo feito essa digressão que me levou a Nietzsche, volto ao Caetano.


E especificamente me debruço sobre o vídeo em que o artista faz sérias denúncias contra o governo do nosso país.


E, fato, quando o Caetano diz a gente ouve.


Caetano tem relevância artística imensa, mas não só: faz parte da história política do nosso país - isso é inegável!


O vídeo de Caetano é em inglês e, evidentemente, é destinado à comunidade internacional.


As pautas do vídeo são:

Os ataques à liberdade de expressão.

A perseguição contra a classe artística.

A dificuldade do governo em lidar com assuntos que se ligam à preservação do meio ambiente e o respeito aos direitos humanos.


Você já viu o vídeo?


É importante ver.

Quero aqui, nessas minhas linhas, expressar concordância com os pontos apontados por Caetano: estou preocupado com o Brasil.


Quero ainda dizer que acho legal ver o Caetano se manifestando publicamente sobre aquilo que acontece no país - é uma figura conhecida e respeitada no mundo.


É importante Caetano estar presente.


Mas eu não escrevi essas linhas todas para pura e simplesmente endossar o que diz Caetano: fosse isso eu apenas compartilharia o vídeo e diria "assista".


Fato é que existe algo no vídeo que me deixa intrigado e... constrangido - para usar o mesmo adjetivo que dei a Nietzsche e traçar de certa forma o fio da minha digressão.


Pois bem...


Existe no vídeo de Caetano alguma coisa que me remete a material publicitário - o que é bastante constrangedor.


Caetano faz suas denúncias.


Ok. Eu concordo com as denúncias.


Mas Caetano faz suas denúncias e conclui o vídeo indicando o filme Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que fora indicado ao Oscar.


E aí é que a pulga salta para atrás da minha orelha.


Não acho o documentário de Petra ruim: trata-se de um bom documentário. Já escrevi sobre ele algumas vezes.


Mas precisamos entender que o documentário não dá conta da complexidade do que está acontecendo no país.


Petra faz um documentário onde ela própria é uma personagem. É evidente que o documentário mostra muita coisa que não teríamos acesso se não por sua câmera, mas Democracia em Vertigem não é material jornalístico - e nem se interessa em ser, é importante dizer.


Democracia em Vertigem é a visão de mundo de Petra diante da queda de Dilma Rousseff.


Democracia em Vertigem nos ajuda a olhar pro que aconteceu no Brasil nos últimos anos, mas está muito longe de dar conta da complexidade do que estamos vivendo.


O que acontece com esse país nos últimos anos, de 2013 até o momento em que escrevo este texto, é muito maior do que o documentário de Petra.


O documentário de Petra é um olhar sobre o caso - e um olhar muito apaixonado, é importante frisar, sobre tudo.


Não acredito em jornalismo imparcial. Não é isso.


Tampouco espero que um documentário seja livre de ideologias. Bobagem!


Acho legal Petra se firmar como Petra diante dos fatos que ela apresenta: esse é um dos pontos fortes do filme!


Mas, por outro lado, não dá pra comprar o documentário de Petra como sendo "A História do Brasil de hoje": não é.


Tampouco dá pra vender a narrativa de Petra como verdade absoluta do nosso país para o mundo: não é.


Em Democracia em Vertigem temos um olhar. Um olhar apaixonado entre tantos que existem nesse país - por sinal, talvez seja o excesso de olhares muito apaixonados (de esquerda e de direita) que esteja dificultando a nossa percepção da complexidade dos fatos: a paixão embaça os olhos...


Eu, daqui, estou tentando olhar para o que está posto sem tirar a complexidade dos fatos.


Eu estou tentando olhar para uma situação que não se resume a um lado certo e o outro errado.


Eu estou tentando olhar para uma situação que não se resume a um lado bom e o outro ruim.


As urnas de 2018 levaram uma contradição absurda para o segundo turno.


De um lado, tínhamos o representante de um candidato que se encontrava preso no meio de um escândalo gigante de corrupção, do outro, um candidato que passou a vida defendendo a tortura e a ditadura militar.


Para além dos dois tínhamos uma dezena de possibilidades.


Escolhemos Haddad e Bolsonaro.


Bolsonaro venceu.


Todos nós brasileiros, independente da posição política que defendemos, temos imensa responsabilidade por esse resultado, por esse cenário em que vivemos.


Quando votamos ao longo de décadas de maneira pessoal e passional, e nunca pensando num projeto de país, damos margem pra esse tipo de situação com a qual nos confrontamos nos últimos anos.


Mas eu estava aqui só pra escrever sobre o vídeo do Caetano, certo?


O que você achou do vídeo do Caetano?


Eu, daqui, achei que tava indo bem, fiquei contente, mas não entendi a conclusão do vídeo com direito a cartaz do filme e tudo...


Pareceu material publicitário.


Pareceu material publicitário de Youtube - aqueles vídeos em que a pessoa parece que vai dizer uma coisa importante, mas logo em seguida anuncia um produto antes de você pular o anúncio.


Achei estranho.


Queria estar equivocado diante dessa impressão, mas não sei...




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