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  • Wander B.

QUANDO O POUCO É MUITO E O TUDO DEPENDE DE MUITO POUCO: O TEATRO-ONLINE E AS BASES DO TEATRO

Atualizado: Jun 26


Não foram poucas as vezes que, em minha carreira como artista, me coloquei em um palco sem nada ou com quase nada: estou falando de uma economia em termos de figurino, cenário, iluminação, sonoplastia...


Tudo isso não por horror às super produções - questionáveis em um país como o Brasil, mas a minha questão era outra.


Eu queria o palco sem nada em função de uma busca mais intensa pelo encontro de gente com gente, sem muitas mediações e interferências tecnológicas, sem muitos artifícios - o postulado filosófico que mais me agrada no teatro, o ideário representado sobretudo pelo Teatro Essencial de Denise Stoklos.


Estou falando de um desejo de me lançar no fenômeno teatral sem melindres.


Viver essa fricção que acontece quando artista e plateia se encontram em uma experiência verdadeira, humana, de compartilhamento de experiências - sobretudo de compartilhamento de experiências em um momento único que é aquele em que acontece o fenômeno teatral.


Esse jeito de pensar a arte, o teatro, surge em mim desde muito cedo: comecei me apresentando nas ruas e foi ali que aprendi que esse era o meu grande tesão, o meu grande barato.


Quando passei a fazer número em palcos maiores, ainda no interior, em ambientes de grandes feiras populares, sentia um frio imenso e uma vontade de resgatar esse espírito que me fez me apaixonar pelas artes do corpo.


Rebelde e com quase nenhuma base teórica, a minha solução era descer do palco consecutivas vezes: eu não me aguentava - eu tampouco sabia o que era a tal quarta parede: eu a atravessava sem saber que ela existia.


Ao longo dos anos, fui percebendo que isso não era necessário. Que eu poderia estabelecer esse tipo de encontro sem me estabacar de cima do palco em direção a plateia - os palcos às vezes são bem altos!


Hoje quando eu me lanço pra fora do palco não é por achar que essa é a única forma de me aproximar visceralmente do público. Eu faço porque dá vontade - porque alguma intuição me diz que, sim, eu preciso fazer aquilo naquele momento.


Usando tudo isso como um prólogo, eu queria dizer um pouco sobre o meu espanto inicial diante da ideia de um teatro-online: que a princípio seria a contramão disso tudo, uma vez que já parte logo de cara de uma mediação feita pela câmera, pelo celular, pela internet...


Aquele olho no olho desaparece.


Aquele sensação de ver o corpo vibrando, transpirando, aquela alegria de ver um olho arregalado na plateia, tudo isso não é possível dentro do teatro-online - a coisa acontece de outro jeito.


Todavia, quero aqui apontar um aspecto muito positivo do teatro-online enquanto linguagem.

Ontem o SESC promoveu um solo de Denise Fraga em diálogo com o texto A Vida de Galileu de Brecht - e que lindo foi!


E não foi só lindo. Foi extremamente vivo e forte e potente.


Pelo Youtube eu via uma grande atriz diante de uma câmera parada. Uma cadeira. Um fundo neutro. Alguns elementos que a artista pegava para construir suas cenas. Um grande texto - sim, um grande texto! E uma interpretação que não era a mimese de uma personagem x ou y: era Denise Fraga dando seu ponto de vista sobre a vida de Galileu a partir do texto de Brecht.


Que beleza ímpar.


E que forma tão inusitada de ver aquilo que me é mais caro no teatro acontecendo de uma outra forma.


Veja!


Apesar da mediação pela câmera, pela internet, apesar da ausência do corpo presente, dessa troca energética intensa entre corpos que ocupam o mesmo espaço, ali aconteceu o teatro que dispensa o que não é fundamental para que o teatro aconteça.


Ali aconteceu o teatro que poderia acontecer em qualquer canto do Brasil. No maior teatro da cidade mais populosa, ou na praça da menor cidade do país: isso é o que me interessa. E isso aconteceu no número de Denise Fraga ontem pelo Youtube.


Quando isso tudo passar e nós artistas pudermos novamente nos encontrar pessoalmente com o nosso público, eu desejo profundamente que a gente se lembre disso: se lembre que o teatro para ser teatro não precisa de milhões e milhões de reais, dólares ou euros: o teatro precisa do teatro.


O teatro precisa do artista de teatro entregue à experiência teatral.


O teatro precisa da plateia ali disposta a ver o que pode rolar - a plateia não precisa se preparar, basta ir: o resto deixa com o artista, um artista precisa saber o que fazer pra envolver sua plateia e botar todo mundo no jogo.


Quando tudo isso passar - e vai passar - eu espero que a gente não se esqueça disso.


Que a gente lembre desse teatro acontecendo só com aquilo que é essencial.


Mais uma vez eu digo, não estou fazendo frente às grandes produções: não é o caso.


Mas foram tantas as vezes que fiz um espetáculo de palco nu e alma aberta pra depois ouvir colegas e críticos dizendo que aquilo era pouco teatral, que me sinto no dever de reafirmar as minhas posições políticas diante do meu ofício.


Quando tudo isso passar, eu quero colocar uma cadeira no centro de um palco vazio e fazer o teatro que sempre acreditei com mais coragem.


E quando qualquer um pensar em questionar a ausência de mil engrenagens, eu vou fazer questão de lembrar desse momento que estamos vivendo: o momento em que precisamos perceber que o pouco é muito e o tudo depende de muito pouco.


Com afeto,

Wander B., 25 de Junho de 2020



Denise Fraga em “Galileu e Eu - A Arte da Dúvida” no projeto #EmCasaComSESC. Foto da tela por Jezz Chimera.


Assista Denise Fraga fazendo Galileu online clicando aqui!

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