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  • Wander B.

UM EXERCÍCIO FUNDAMENTAL PARA ENFRENTAR OS TEMPOS QUE VIVEMOS

Um exercício fundamental para enfrentar os tempos que vivemos: desconfiar da primeira leitura que fazemos dos fatos, afinal, podemos estar sendo manipulados.

É muito fácil, movido por uma primeira impressão, olhar para um objeto complexo e não percebê-lo em sua complexidade.

É fato que eu escrevo isso a partir desse caso que envolve o vídeo do Roberto Alvim parafraseando o discurso nazista de Joseph Goebbels.

E é evidente que eu não estou aqui para defender um secretário de cultura que flerta com o nazismo.

Mas eu quero, sim, colocar umas pulgas atrás da orelha das poucas pessoas que dedicam alguns minutos para ler as coisas que eu escrevo.

Esse vídeo foi feito pelo Alvim de dentro da estrutura governamental.

O secretário se reuniu com o Presidente da República e com o Ministro da Educação para fazer uma live anunciando os novos planos do governo para a Cultura.

Na sequência, na mesma noite, o vídeo com o secretário da cultura fazendo discurso que flerta com o nazismo é lançado.

E aí eu tenho diversas questões.

Um vídeo, vocês sabem, não se faz sozinho. Existe uma equipe.

Quem colocou a trilha do Wagner no vídeo?

Quem colaborou com a redação do discurso?

No meio dessa equipe ninguém suspeitou do conteúdo?

Isso tudo foi feito pelo Roberto Alvim?

Bom, feitas essas perguntas, básicas, faço mais outras.

O Roberto Alvim parafraseou o Goebbels e achou que ninguém no mundo ia perceber?

O Roberto Alvim acreditou que seria possível, em pleno 2020, parafrasear um líder nazista e seguir tocando o seu projeto pela secretaria de cultura?

Eu não vou dar respostas, eu tô querendo mostrar é que o objeto em questão é mais complexo do que se apresenta.

Sobretudo porque se a gente vai pontuando que o Roberto Alvim fez tudo isso sozinho, que as pessoas que estavam ao lado não perceberam a gravidade do conteúdo, que a pessoa que editou o vídeo colocou Wagner como trilha sonora sem saber do que se tratava e sem estranhar nada, se a gente acreditar que tudo isso é pura e simplesmente uma obra do Roberto Alvim, teremos que concluir que ele está fora do seu juízo.

Mas quem disse que ele está fora de seu juízo, hoje pela manhã, foi o seu guru, que é também mentor do governo Bolsonaro, o escritor Olavo de Carvalho.

Será que é isso? Simples assim? Roberto Alvim está fora de seu juízo e cometeu um suicídio simbólico fazendo esse vídeo? É isso? É só isso?

Um ponto importante que não pode ficar de fora. Eu tô vendo as pessoas, sobretudo as pessoas da minha classe, da classe artística, comemorando a saída de Alvim e dizendo: a justiça foi feita.

Pois bem, se a justiça foi feita: quem fez essa justiça?

Quem demitiu o Roberto Alvim foi o Presidente Bolsonaro.

E como foi que isso se deu?

Foi a pressão da categoria artística que fez com que Bolsonaro demitisse Alvim?

Você acredita que o Presidente Bolsonaro ouve a categoria artística?

Foi a pressão de líderes como Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia que fez Bolsonaro tomar uma medida rápida?

Você acredita que o Presidente Bolsonaro ouve as outras lideranças de Brasília? Senadores, deputados...

Se você acredita nisso, então você acredita que Bolsonaro é um democrata, certo?

E até mais do que isso, você acredita que Bolsonaro é um democrata que age rápido: diante de qualquer coisa que ameace à democracia, o Presidente não hesita, não titubeia, ele age rápido e faz o que precisa ser feito. É nisso que você acredita?

Você acredita que o Presidente da República repudia com veemência qualquer manifestação contra os princípios democráticos?

Você acredita que o Presidenta da República repudia o nazismo?

Jair Bolsonaro é justo?

Eu não vou responder. Eu só estou interessado em devolver complexidade ao objeto.

E pra terminar eu tenho mais umas perguntas. Mais umas pra deixar no ar.

O que acontece com a cultura agora?

O projeto continua?

O projeto é paralisado por tempo indeterminado?

O dinheiro vai pra outro lugar?

Pra onde vai o dinheiro destinado a esse projeto?

Quem será o novo secretário da cultura?

E tem mais perguntas... Pois é, tem mais várias perguntas...

Uma delas, talvez a mais importante de todas:

Você acha que a imagem de Bolsonaro sai prejudicada ou fortalecida diante desse caso?

Outras, que devemos nos fazer todos os dias:

Como pode um governo se sustentar passando diariamente por situações absurdas como essa? Será que é justamente isso que sustenta o governo? Será que o absurdo posto como prática diária é o que sustenta esse governo? Será que um escândalo esconde o outro?

Antes de comemorar a saída do Alvim, é fundamental devolver a complexidade ao objeto.

O vídeo em questão não é qualquer coisa. É material de estudo.

É material de estudo também o nosso comportamento nas redes sociais:

Ontem falávamos do escândalo da Secom, hoje falamos do escândalo da cultura, de que escândalo falaremos amanhã? De qual escândalo você nem lembra mais?

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