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  • Wander B.

UMA QUESTÃO DE LINGUAGEM

Vi hoje um vídeo muito interessante em que a drag Rita Von Hunty (Tempero Drag), a quem admiro, faz paralelos entre o atual presidente e outros fenômenos populistas como Fernando Collor e Jânio Quadros.


Julgo que as comparações são possíveis, no entanto, precisamos nos atentar para um detalhe muito importante.


Apesar do discurso nacionalista que essas figuras têm em comum, esse discurso de Brasil forte, esse discurso que movimenta a massa, Collor e Jânio possuíam características que os distanciavam muito da realidade do povo.


Quer um exemplo?


Dificilmente veremos nas ruas uma pessoa fazendo uso de mesóclise - quantas pessoas você conhece que falam, por exemplo, "entregar-te-ei"?


Pois bem...


O que estou dizendo parece um detalhe bobo, mas é muito perceptível a diferença de relação que se estabeleceu entre a população e o Lula e a relação que se estabeleceu entre a população e o FHC.


E isso tem a ver com as biografias dessas personagens, evidentemente, mas tem também a ver com linguagem.


Linguagem não é pouca coisa.


O modo como dizemos as coisas é tão importante, ou até mais importante, do que aquilo que dizemos, sobretudo quando o assunto é política.


Política é jogo de aparência, de imagem.


E a imagem que um político constrói está totalmente ligada à linguagem que ele usa.


O jeito de se comunicar de um político modifica toda a sua relação com a população.


Precisamos olhar pra isso.


Estou escrevendo tudo isso para, junto com vocês, pensar nas pessoas que hoje estavam nas redes sociais comentando a fala do presidente diante das cinco mil mortes pela covid.


É possível que você tenha visto alguém dizendo que o presidente não falou nenhum absurdo e que, de fato, só pode lamentar uma vez que não faz milagres.


E aí é que está o ponto central desse meu pequeno texto: "milagre eu não faço" faz parte do que há de mais senso comum nas nossas conversas.


Mesóclise você não ouve por aí, mas "milagre eu não faço" provavelmente você mesmo já usou diversas vezes.


Se uma frase dessa vem colada em um trocadilho, então entramos de vez na cultura popular: "sou messias, mas não faço milagres" é um tipo de jogo de palavras muito comum, muito usado, algo que cabe em qualquer boteco, em qualquer churrasco de família.


É só exercitar a memória e você vai lembrar de dezenas de trocadilhos similares...


Se não entendermos essa característica que distancia Bolsonaro de políticos como Collor e Jânio e o aproxima daquele que é considerado por tantos como o primeiro presidente a representar o povo no poder não entenderemos o bolsonarismo em sua profundidade.


Sim. Eu estou traçando um paralelo entre Bolsonaro e Lula, naquilo que diz respeito à linguagem.


Se avaliarmos Bolsonaro como um fenômeno das elites, puramente das elites brasileiras, cairemos em erro e, possivelmente, pagaremos caro por isso.


O bolsonarismo tem força, sim, entre as classes economicamente privilegiadas do país - que ajudaram a chocar esse ovo!


Mas o bolsonarismo é, antes de tudo, um fenômeno popular. E isso não é pouca coisa.


É evidente que eu repudio o governo Bolsonaro. E cada vez mais. Mas é preciso entendê-lo. Entendê-lo em sua complexidade - até mesmo para pensarmos nos desdobramentos diante de um possível impeachment.


Pensemos.


Assista o vídeo de Rita Von Hunty clicando aqui.

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